sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Geração dos Planos Desfeitos


    A pandemia da COVID-19 nos fez enxergar muitas coisas de forma diferente. Percebemos o quanto vivíamos confortáveis em detrimento de gerações anteriores que sempre tiveram dificuldades para além de seu controle e perspectiva, percebemos como muito do que temos na verdade só faz parte do nosso jirau de ícones de nossa época mas que pouco significam em termos de essência para sobrevivência, percebemos o quanto somos frágeis diante de forças descomunais como a de uma colônia de vírus organizados, percebemos o quanto a exploração do trabalho pode ser relativizada e não precisa se impor como uma verdade de todos os dias e horas (sim, durante os lockdowns, ao menos uma grande parte viveu e sobreviveu sem trabalho – não sem renda pois ainda dependemos do dinheiro) percebemos como a humanidade pode seguir sua mesquinhez mesmo diante de tal desafio e não se unir em torno do bem comum entre tantos outros aprendizados (ou falta deles).

    Para quem pode e teve um lar onde se refugiar durante a pandemia percebemos novos lugares da casa, impusemos desgaste a esta estrutura que antes era dividido com o desgaste que impúnhamos aos locais de trabalho e estudo durante as horas que estávamos lá. Impusemos superexploração de minérios e de supercondutores para nossa infraestrutura eletrônica, que foi levada à outra potência.

    Falamos de assuntos nunca antes aprofundados como índice de replicabilidade, taxa de transmissão, aprendemos sobre médias móveis, gráficos e curvas em um desenvolvimento sem precedentes do pensamento exponencial.

    Mudamos bastante a nossa forma de ser e estar. Estamos muito mais avatares do que na carne e osso. Conversamos com quadradinhos na tela, nos encontramos em plataformas digitais onde somos carros, bichos, monstros e muitas vezes, até seres humanos.

    Nunca mais vimos os pés das pessoas. Não conhecemos mais o cheiro, a altura ou mesmo suas costas. Ficamos mais distantes, é verdade, mas ao mesmo tempo entramos no quarto dos colegas de trabalho, na sala, no banheiro e, às vezes, até nos aposentos de sogros e sogras. Sobramos intimidade para cabelos malfeitos, barbas desgrenhadas, camisetas de vereadores da década de 90 e para crianças correndo e gritando de um canto a outro da tela.

    Ficamos à espreita por uma brecha sanitária para encontrar os nossos mesmo que soubéssemos que não saberiamos nos portar na situação tão aguardada.

    Esperamos e esperamos, por anos. Ficamos cansades, exaustes e extenuades.

    Talvez nosso maior aprendizado seja o da espera e da contemplação sem expectativas. Talvez o futuro não exista ou precisaremos pensar nele depois. Em meio à pandemia, os que ousaram pensar no após se frustraram muito. Mais coesos e centralizados ficaram os que aprenderam a desfazer e a esperar. É possível que os de planos altos se movam melhor no depois mas a real é que os que souberam abolir o depois estiveram mais serenes.

    Aos que urge o tempo, ele se torna mais agressivo e machuca muito mais. Aos que ao tempo esperam e dão espaço, ele é mais complacente neste ambiente pandêmico.

    Ninguém me preocupou mais do que adolescentes. As crianças estiveram com pais, mães e até avós e avôs mais do que nunca mas a adolescência urge conquistas, urge investidas fora do casulo. Urge experiências de autonomia e burradas bem como requer cuidado e atenção psicológicas. Aos que foi possível por motivo de classe e outras condições, a adolescência foi jogada dentro de um quarto com cheiro ruim de hormônios. Relações virtuais são da geração delus, mas não precisava exagerar né?

    Seus encontros vitais foram cancelados por causa da avó comórbida que coabita. Os passeios e sua verve foram amordaçadas pela falta de ar do pai. Foi exigido das forma mais autocentrada de gente que tivessem responsabilidade coletiva e social e planetária. Suas bocas foram recolhidas às máscaras.

    Não sei o que será desta geração, não consigo imaginar como vão pular esta fase. Ou não vão?

    Sem egoísmos, sei que avós e avôs viveram em guerras mundiais, guerras locais e guerras totais. Viveram pandemia e estiveram ou estão por aí. Sua geração tem marcas, tem jeito,  tem cultura e tem tempo. Não foram apagados pois tiveram que engolir uma parte de sua vida.

    Mas esta geração abalroada pela pandemia da COVID-19 assusta sobremaneira pois estiveram distantes sem estar, estiveram e foram ser ser e estar. Viram o mundo pelo ambiente virtual mas nunca tocaram-se, sentiram-se.

    Tiveram que se desfazer de seu aprender e conquistar mesmo sem ter consolidado seu aprendizado e suas conquistas. Tiveram que se despir de planejar mesmo sem ter modulado seu aprendizado para a construção de um futuro pretendido.

    Depois da geração Y, Z, Alfa, Beta, Delta, teremos a geração dos planos desfeitos. Uma geração que aprendeu muito cedo a perder, a desfazer e a desmontar, mesmo sem ter aprendido ainda a montar e a planejar. Pode ser que se tornem seres humanos mais conscientes. Pode ser que seja exatamente a geração que, por conta de sua experiência, aprenda que crescimento e consumo sem freio só servem para nos destruir a todes. No entanto, o que em preocupa no momento é algo bem mais prozaico. Estou dedicado a sofrer com as férias que não puderam tirar, com a educação que não puderam ter na escola, com avós e avôs que não puderam encontrar, com passeios que não puderam fazer, com encontros que lhes foram tirados e com a paciência e compreensão que delus foi exigida.

    A geração dos planos desfeitos vai nos ensinar muita coisa e se desprender dos valores que hoje conduzimos. Serão independentes de premissas que hoje nos parecem alicerces de nossa sobrevivência mas no momento estão engasgades. Espremides por um mal que não enxergam e por uma sociedade que tampouco os vê. Governantes repensando a ordem das coisas para que o mundo que não é mais, ainda seja, do jeito que achavam que devia ser, e para que se mantenha funcionando uma economia que já não existe. Oprimides por irresponsabilidades de geração anterior a geração dos planos desfeitos seguirá seu passo e, oxalá um dia saibam desrespeitar a geração anterior culpando-a por seus planos desfeitos e transformando sua força em uma revolução de costumes forma de agir e pensar.

 

                                                           
                                  
- à minha filha e ao meu filho que, até quando encerrei estas palavras já haviam vivido entre os seus 09 e 13 anos na pandemia de COVID-19 –

                                                                              

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

True Rouge

True Rouge é uma poesia algébrica de Simon Lane de 1997. O artista plástico Tunga o utilizou como inspiração para uma obra que está exposta em Inhotim. O poema fala sobre a ocupação do espaço pelo vermelho.






sexta-feira, 6 de abril de 2012

Redenção


Vida crucificada
madeiro que se fez dor
vida transformada
sangue de amor
 
(Marisa Vieira)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Imagem: Web
Texto: Amalri Nascimento

Divagando


Na noite
Caminho por sobre estrelas
Porquanto divague em pensamentos
No espaço e no tempo

Mergulho para me perder
Na bruma gélida que amplia a escuridão
Somente pela sensação de se reencontrar
Nos clarões que riscam os céus trevosos

Nos cruzamentos ocultos do breu
Surpresas me espreitam
E em cada esquina reato novelos partidos
Que outrora marcaram caminhos...

Na noite
Sou espectro de sonhos latentes...
Fantasmas que vagueiam sem deixar vestígios
Sou eu mesmo e outros tantos, livre penumbra noturnal...
Desordeiro dos (pre)conceitos que arraigam sentimentos

Visito dimensões micro(macro)cosmo afora...
Galáxias utópicas de singulares equações
Atirando-me em buracos negros que atraem pesadelos
Para acordar na serenidade de sonhos idílicos...

Domo fabulosas quimeras!
Devaneio por minhas próprias alucinações...
Morro e renasço e liberto-me do ócio...

(*)
1. Menção Honrosa no VII Concurso Nacional de Poesia-2011 - Academia de Letras e Artes de Paranapuã (ALAP), Rio de Janeiro/RJ;
2. Poesia publicada na Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 85 - Janeiro de 2012 -CBJE; e
3. 2º Lugar no CONCURSO LITERÁRIO (Conto, Crônica e Poema) Edição 2011 da União Brasileira de Escritores (UBE), Núcleo Canoas/RS. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Quinta Poesia de 20 de Outubro de 2011

Hoje eu vou de uma que li de um usuário do Facebook

"A vida é muito curta para ejetarmos USB com segurança"

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Nina para quinta-poesia
mostrar detalhes 23:43 (14 horas atrás)
Adorei, por isso ejeto sempre sem a segurança...e os seguros me dizem é maluca, vai estragar...
Rssss...
Beijos

Em 19 de outubro de 2011 23:42, Renato Bock <rebock@gmail.com> escreveu:

--
Nina
" Para amar basta existir..."




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Nina não está disponível para bater papo
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Bruna Moroni para quinta-poesia
mostrar detalhes 23:44 (14 horas atrás)



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Bruna Moroni para quinta-poesia
mostrar detalhes 23:45 (14 horas atrás)
ah... a vida nao eh tao curta...


Date: Wed, 19 Oct 2011 23:43:47 -0200
Subject: Re: Quinta Poesia
From: ninaceolin@gmail.com
To: quinta-poesia@googlegroups.com
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Omar Silveira para quinta-poesia
mostrar detalhes 07:40 (6 horas atrás)

http://www.youtube.com/watch?v=MuRwyA5OFKQ&sns=fb

Mário Quintana por Antônio Abujamra


Bjos


Enviado via iPad

Em 19/10/2011, às 23:42, Renato Bock <rebock@gmail.com> escreveu:





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Ana Bock para quinta-poesia
mostrar detalhes 09:42 (4 horas atrás)
Bárbaro!!!!! Adorei!!!!!
Levei pra casa a lição.

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roberta scatolini para quinta-poesia
mostrar detalhes 12:59 (1 hora atrás)
PEQUENO ESCLARECIMENTO

Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.

Mario Quintana
Feliz dia dos poetas!!!!
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Roberta não está disponível para bater papo
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alexandre silveira para quinta-poesia
mostrar detalhes 13:53 (7 minutos atrás)

E.E.Cummings

minha especialidade é viver - era a legenda
de um homem(que não tinha renda
porque não estava à venda)

olhar à direita - replicaram num segundo
dois bilhões de piolhos púbicos do fundo
de um par de calças(morimbundo)

( tradução: Augusto de Campos )